sábado, 7 de maio de 2011

[sonya fu]
Iugoslávia


e, com toda a sensação
fim-desconcertante num filme
-aqueles que terminam com vírgulas-
recai o refrão:
é preciso se adaptar à solidão?

ou ainda, ao contrário:
não há que se adaptar a nada,
simplesmente não há comunicação.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

"prova ontológica" ou descartes está me afetando pela culatra

Criança e achava que "morar embaixo do viaduto" era metáfora. 

Isto se explica: mais nova ainda, minha mãe perguntou se eu gostaria que a gente tivesse uma casa na praia. Como rosto translúcido de criança mostra rápido toda a confusão, mamãe compreendeu os sofás e tapetes em cima da areia que estavam aparecendo na imaginação da criança. Então ela riu de que-gracinha e me explicou que era uma espécie de linguagem figurada, o que ela tinha dito, e servia para encurtar o que já estava subentendido. Disse, depois, que existia coisa mais radical ainda que chamava "metáfora", e isso sim dava em coisas absurdas-mais-ou-menos.

[adam ek berg]

Achei bonita, a palavra.

Eis que, então, se falavam sobre "morar embaixo do viaduto", eu entendia  "praticamente embaixo": num prédio-ou-casa muito perto de um viaduto. Ou ainda, morar em lugar ruim.

E, sendo criança no Rio de Janeiro, é claro que os olhos passaram por algum viaduto habitado eventualmente, mas eles nunca se sintonizaram com a possibilidade desse absurdo-outro-mundo antes; logo, nunca tinham reparado nisso até os meus 7 anos.

Até os meus sete anos, disse. É, chegou o pequeno clímax da história, o desanuviamento no encontro avassalador:  Sim, havia pessoas do outro lado do vidro do carro; e sofás; e cadeiras e cartola, e mais muito-muito lixo. E tudo isso embaixo da estrutura de concreto que leva carros por cima das ruas. Sim, realmente embaixo-do-viaduto.

Depois disso, nunca duvidei da realidade extensa das imagens.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

sobre a guerra civil

[óleo-difusão da Margarita Georgiadis - The Dust Weavers]

e ela tinha olhos de catarata, todos nostagia.
médico-sem-fronteiras diz que é doença, acho que é medo de enxergar.

vai que medo diz intuição?
 não se deve ver mais do que se deve.

terça-feira, 3 de maio de 2011


cansada demais para dormir,
e minutos-horas no escuro da cama

tento pensar em belezas poucas,
mas me anoja, meu otimismo:
são imagens feias, de mesquin-magras.

hesitei no vir-dizer isso,
mas me acalma:
reconhecer é mais em ser.



[austin power] 

quinta-feira, 21 de abril de 2011

quando era criança e trabalhava na roça, acontecia dela sentir um poema vindo pelo horizonte. era um trem de ar, relampejando. e, quando ela sentia aproximar, só tinha uma coisa a fazer: correr feito o diabo.  E correndo, perseguindo enquanto era perseguida pelo poema, o que ela precisava era chegar na casa:  pedaço de papel e lápis, rápido, pro poema poder relampejar no escrito.
mas tinham outras inda vezes: ela corria, e caia, e corria, mas o poema passava por ela e continuava até o horizonte, procurando outro poeta.
só que o melhor eram os quase perdidos: ela pegava o lápis no momento depois do justo, quando o poema já passava pra fora. então a outra mão vinha ajudar: pegava o doido pela cauda e puxava do avesso, como fosse, pra volta dela.
aí era que era o curioso: o poema vinha perfeito e intacto, mas da última palavra pra primeira.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

"who's watching who?" matters


[jamie beck]

in the ancient struggle of breath against death, one more sleep given.
esquizofrenia dos sentidos


[bailarina horário-anti-horário
[[sem a discussão meio-chata sobre os lados do cérebro]]

Seria fácil e bom, se fosse assim agora.
Seria  bom, já tivesse sido agora?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

prazerinsanto ou "o fim da guerra fria"

[sensa-amado Clovis Trouille]

"Somos herança, meu amor. Alma indivisa de sofrência determinação"
"À completa devoção"

enquanto
 dúvida fresta
 espia à esquerda

terça-feira, 12 de abril de 2011


[sim, estão traduzidas pro inglês, mas são de Minas]

A perfeição era só:
sólidos platônicos
são cinco.

Então o astrônomo
errou, e descobriu:
significa a dualidade.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

uma história da queda lenta

Foi antes o muito amassado no carro,
depois a mancha quase rosa no chão.


Mas só quando o plástico preto que cobria um corpo alto me apareceu do lado
é que o coração apertou.
E o dia foi não dando certo pouco a pouco:
fracassos cotidianos do lado dos tragedilouqüentes.


Mas no bendi das 15h33,
um cachorro morimbundo me apareceu pra mostrar:
não convém ignorar maus agouros.

Foi antes o muito amassado no carro, depois a mancha quase rosa no chão.
Mas só o plástico preto em cima do corpo alto-deitado é que apertou nó o coração.

E o dia foi não dando certo pouco a pouco: fracassos cotidianos do lado dos tragedilouqüentes.

Foi aí que, às 15h33, o cachorro morimbundo apareceu para granjear: não convém ignorar agouros,
não sempre.