domingo, 11 de março de 2012

Uma criatura ou "fill in the blanks: retrato de um olho roxo pela Lapa" 


Sei de uma criatura antiga e formidável,
[etsy]
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
















Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida;
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Canto Diurno ou "pujante é a raiz que se vê pela folha"

Perséfone

Fiama Hasse P. Brandão disse:
"Quando Março me dá nova flor
que se abre sem palavras a corola,
eu comparo-a com o amor que eclode
na pupila do olhar em luz e sombra.
Todo ventre é bendito, tanto
mais o da primavera do cio
de aves e flores. Também o desejo
imaginou a língua sem palavras,
e que é a do som do Canto e dos poemas"

Ora estamos em março e invejei renovação
Então, reverente olhei o verde, e aquiesci
"aqui, primavera é toda estação"


domingo, 4 de março de 2012

Rimas no corpo ou "sobre a maestria" 



[Klara Kallstrom]

É que todos acham as suas obras belas, ouvi num Cícero dizer.

ou ainda: Sante Iohannes da escala diatônica é a nota mais aguda, é o espectador em si

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

repetir-repetir-repetir até ficar diferente


17 de fevereiro de 2007
(adaptado, medido e censurado):

"Foi quando eu passei a achar uma sorte gostar de mulheres. Não pelos motivos que efetivamente me fizeram ver paixão, mas também por outro secundário e muito importante: justo a falta de modelos que eu tinha sobre gostar de mulheres.

Existir modelo até existia, claro, mas eu achava essa minha história tão muito diferente desses outros, do pejorativo que pode ser quando alguém fala "sapatão" como se isso xingasse, que eu percebi que tinha, afinal, muito menos modelos desses perigosos porque pre-estabelecidamente colados no jeito como a gente chama as coisas de 'naturais'. Pobres dos heterossexuais, além de todo o sofrimento do amor, ainda têm que estar alerta para separar a profusão de clichês.

Ok, não que eu esteja isenta de clichês, tudo bem; mas o fato de ser constantemente lembrada de que a minha relação não é dentro dos maiores moldes já é o suficiente para me deixar, pelo menos, mais alerta do que eu estaria se não fossem estes lembretes.

Fiquei um tanto mais feliz, assim. E também porque isso se desenrolava em outro lado: o de perceber que o sofrimento de não saber o que fazer era, na verdade, muito bom, porque era sinal de que eu estava construindo uma coisa só minha, com alguém, então realmente nossa; não tinha jeito de copiar de ninguém.

Pensei no quanto deve ser mais difícil conseguir uma coisa dessas se você está vivendo alguma confusão desesperada e pensa em ler Capricho ou Marie Claire para procurar solução. Gente é sempre e mesmo aluna: se já se tem resposta pra pergunta, está feito o trabalho. Ninguém se esforça em vão.

Não-em-vão, então, é responder de novo, e no pulo do perceber que a resposta feita não serve, no fundo. Não-em-vão justo porque a pergunta é só sua e, se bem sua, radicalmente (ainda) sem resposta.

Mas diz isso pra moça que não sabe bem o porquê de gostar do moço que paga a conta, ou pro moço que não sabe bem o porquê de gostar da moça de voz fraca...

Pode mesmo ser ganância pseudo-ativista e boba minha, mas passei a achar que romance deve ser coisa ainda mais difícil pros héteros."


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

esperanta coleção ou "o que as línguas buscam é id-entidade?"








[camila leon]

infante-instável, sou vão, viril-vagina.
pronto, é preciso voltar ao quarto vazio,
quem sabe se, distraída com orthos-coleção,
acabei tendo ontem ethos-nascido?


what did that mean?

 something, she said
 in a glimpse,
something howabout.

that is, about
 how the long longing look
is really a study,
a searching seeing,
a look that makes up
for the time with no-sees.

longa espera não é paciência,
é? é ofício.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Coloco a Clarinha para dormir lendo uma história sobre o castelo de um mágico que entende a língua das crianças.

Ontem ela acordou assustada com os lençóis molhados. Já há muito tempo ela não fazia xixi na cama; disse que sonhou com alguma coisa que já não sabe bem.

Me pergunto a mim pelo que eu lembro dessa língua. Tento imaginar os segredos da Clara com o mundo e, depois, vou intuindo o que eu gostaria de um ser-irmã-muito-mais-velha. Enquanto passeio com ela pelo centro, pelo mam, pela orla, tento assistir ao jeito como aquilo deve aparecer pros seus seis anos.

Minha mãe está no hospital, passará a noite por lá, de novo. Passo pelos álbuns de fotos na estante. Quando ela estava grávida de mim, tinha pouco mais do que a minha idade. Minha mãe cuida da sua mãe no hospital. Só depois de pensar nisso assim tive mesmo a consciência dela como ser humano, com uma realidade além daquela de ser minha mãe.

Olhar as fotos dela quando era jovem me entristece. Mamãe aparece linda, com os olhos cheios de expectativa e agudez, como se quisesse tudo o que tem no mundo. Queria agora conseguir falar para ela sobre a morte de um jeito que parecesse com o amor, e antecipo esse momento em que ela não sofrerá mais a tristeza de já não poder cuidar da sua mãe. Penso se ela tem sentimento de dívida com a minha avó, ou se a tristeza dela é pura e sem acalento. Ela está sozinha e, nisso e já, também não posso cuidar da minha mãe.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011


- Além tudo disso, a gente quer ser força em caminho do tempo; o que é também papel esquisito. e acontece, quando esticamos olhos para fora depois de intervalo mais longo, que a paisagem já mudou;


- (...) Só que o que passa voando só passa porque só pode ser assim. Por isto e apesar, cresce outro esquisito: a sensação de que seguimos para fora de caminho nosso ou de entrarmos em viela estrangeira. 


- (...) Até um dia, que surge urgente: desembarcar! saltar!  ânsia de pare, que é se deixar perder em mar só, pra só assim chegar em terra.

[diego gravinese]

 Está posto marinheiro-caminho: ii) atolar e ver, i) ansiar um ponto antes, iii) refixar (estrela) e refundar (terra).  Depois secar os pés ao sol.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

no escuro do quarto, algum silêncio. a rua está muda.

num de novo, volto ao mato.
por todos os poros ordem outra porejo,
e a verdade entoa ao então:
não-mais ver luz elétrica, ver só verão.

no então, realeza recolhe o confuso. confia e conforta.
anima e refia, e dá mama.
brilha aí beleza alheia, sem parede porque despórica,
sem caminho porque sem troca, só agora e agora outra vez.

natureza fruta, abunda, e nega labirinto,
o que é pró e epi negar a Métis.
"fundamental é que a vida continua", ela diz.
"mas alma esquece porque esquece", continua.
então fiat-constrói e, num de novo, alma se perde.

"é que natural é viver humanamente", rediz,
porque sabe pró e epi dizer ao humano.
mas de cima pra baixo, como é natural,
e complacentemente, como é divino.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Sobre o irreversível do verso



É que o ser sensível é ser inexplicável, irreferível, diria Maiakóvski, mas disse Platão. Então não há que ver palavra, mas ser-palavra, constrangendo, forçando, procurando o imutante do informe.

Nisso é que qualquer verso vira perversão do já ser: inédito no jogo, limite entre vir-a-ser e nunca-tornar.


In the ancient struggle of breath against death, palavras-asas.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

a madrugadas acordo
na hora do lobo


meia luz é luz branca
tanto tempo passou
e desintuí a dormir


mal e mal vejo pele
estrangeira, minha
e nenhum passo.


imóvel, amarrada,
não-dito, não-vou,
não sei.


não guardei rascunho,
joguei fora a cópia.
aperto os olhos
devagar, de sono:
um resto de mosaico
sobrevive.


estou aqui, 
então devo comer,
minha neta me falou.
[1989, Wim Wenders,  
Identidade nós mesmos,
Notebook on cities and clothes]