sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

oxímoro, ou a agudeza idiota, disseram os dicionários depois dos gregos


É que a sede 
nunca me fez 
mais pragmát
ica, respondi 
ao vendedor 
de materiais 
de construção
que me entreg
ava a nova pá 
junto com o tr
oco; ao contrár
io e não sei por
quê, ela me faz 
uma ambição pr
eguiçosa, a.k.a.
calculativa.  É aí 
que eu penso tan
to antes de cavar
, que nunca tenh
o poço.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013


Bem me quer, mar me quer



Lançamos o barco, sonhamos a viagem, 
mar quem viaja é sempre o mar.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Basho atravessava o país para encontrar uma cachoeira.

Mesmo em Quioto, 
quando ouço o cuco, 
tenho saudades de Quioto,

respondia ele assim sempre que lhe entoavam um aonde vais?.

Imagino-o acordando ainda em casa,
preparando a viagem, comendo e se lavando, 
e tudo isto movido pelo desejo de ver Quioto, 
de onde, no entanto, ele ainda não havia saído.

É que a saudade de Quioto nunca teve realmente a ver com o fato de estar lá.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

3 horas da manhã e nada.
Nem um mio de gato,
agora um mio de gato,
agora nada.

Toda frase deveria conter pelo menos um fato, disse Ana,
bastante sem saber de onde vinha conclusão assim.
Mas pôs-se a experimentar:
Nunca li cordel alemão.
Isto é um fato?

Esta é a parte boa de ser Zeus
Zeus
disse,
quando perguntado sobre o desaparecimento súbito de todos os rios do mundo,
Eu não tenho que explicar
nada. 

replied poet Anacoluthon.

domingo, 16 de dezembro de 2012

sobre horizontes sinuosos



ao mar o que é do mar: 
pra quem foge à terra presa 
eia
à deriva em alto-mar, outra cela

é que agir sem se conhecer
exige coragem,
isto os portugueses bem-souberam ensinar.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012


Osere sentia há três dias um vazio do tamanho do Deus.
E, sendo menina islandesa muito certa do que é a terra, sabia: isso é sinal de mau sono do vulcão.

Acontece é que, por lá, fala-se muito, em momento de educação primária, sobre dança tectônica, sobre  núcleo da terra, sobre choque do magma em pedra; sobre etc um e sobre etc outro.

Mas Osere só condescendia, nas provas de colégio: no profundo, nada poderia ser mais sabido: ninguém entende terra por estar sobre ela, mas só e sempre quando sobre é por dentro. 

Foi vazia, mas certa que Osere chegou, então, perto do poro do vulcão.
Pronto, pronto. Desta vez foi até rápido!

Foi Osere, finita e pequena, olhar bem fundo na íris do vulcão, e já estava bom e quente de novo o coração da imensidão.

terça-feira, 30 de outubro de 2012


[Thoka Maer]








Era Aurélia quando viu o espelho.

Mas foi Aurélia ver que olhou, 
e tratou logo de esquecer o que viu. 

Lembrando o ocorrido minuto antes do sono, 
roubou a caneta do T.S. Elliot, e disse: 
"Human nature is able to endure only a very little reality"


sábado, 27 de outubro de 2012

É que a lâmpada estava queimada, a capa da almofada tinha rasgado, os livros estavam amontoados, e até colcha de cama tinha poeira. Mas foi num de repente que isso apareceu.

Lembrei, então, da minha tia Elza, tia-avó dos verões no Farol de São Tomé. Lembrei dela quando percebi alguma vontade de conserto, sabe?

Lembrei da vida longa olhando pra costura, sentada na cadeira de balanço da varanda que olha prum mesmo mar vazio e barrento. Mar que coexiste um pouco fantasticamente com os muitos e enormes pinheiros que costeiam a areia, aliás.

Lembrei, e lembrei das tardes inteiras de mutirão descascador de camarão fresco nessa mesma varanda, no meio de prosa muito boba e tranquila.

Mas lembrei sobretudo, lembrança esta que andava bastante esquecida, do dia em que eu queimei um sanduíche porque estava distraída contando as frutas desenhadas nos azulejos da cozinha, e a minha tia Elza disse, num tom sapiencial muito simples que combina sempre com ela:

ô amorzinho, lembra que só existe pra tudo uma única receita: é ter o maior cuidado na hora de cozinhar.

domingo, 21 de outubro de 2012


É que sexo é separação, disse o verbo latino seco; mas diria também eu, agora que já estou dizendo.
Separa porque diz você é um, e é nisso mesmo que une ao outro, outro um.

Separa porque encerra em quatro muros:
ao norte, aventurança a inventar; ao sul, memória envidraçada;
a leste, o espelho evadido; a oeste, reflexo e refletido.

Separa, então, por dom do tempo,
coisa que traz a memória de outro intervalo: o vão entre poema e poema.

Separa; então do então; por promessa.






[Gina Ruggeri]





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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Eu a chamo Eu.
Euclícia, no completo;
Eu, quando é em mim.

Ela, no então, diz:
Mas assim sou eu-; incompleta,
Eu e um traço, eu e um soluço.
Eu-; que diz bem-, mas diz mais nada.

Mais nada, penso eu.
deve ser mesmo isto, o Bem.

E é mesmo isto que, não sempre, mas também,
às vezes somos: eu, eu, e mais nada.