terça-feira, 3 de julho de 2012

O exílio é fora do solo, quer dizer, "la chancelante équivocité du monde"


 , disse Arendt, pintou Manet, compôs Ravel.

sábado, 16 de junho de 2012


Meio-espelho


Criador-deus a tudo fez 
para criar também um
Visível-deus.

fazendo, foi com este apenas 
e pela primeira vez que Ele se deleitou
e amou-o como seu próprio filho,
o Palavra Santa.
Deus omnium creator
Secum Deum
fecit visibilem 

hunc fuit primum
et solum quo oblectatus est
et valde amavit proprium Filium, Sanctum Verbum.



[Francisco Hurtz]


quinta-feira, 31 de maio de 2012

era chuvinha fina com sol, invisível até, mas bem sentida porque também ventada.
e eu ali embaixo, de alma pesada e coração travado, na seca de quem não olha pra cima.

acontece que é esta a retórica das nuvens: chamar atenção pro céu.
e, em coisa de momento ou dois, as gotas me acupunturaram o coração.

só isso e pronto, o caminho é como sempre foi:
vou indo pra frente e, quando estiver começando a me sentir em casa, volto pra casa.

terça-feira, 29 de maio de 2012

vertigem.

de novo o medo da encenação arriscada.
de repente surgem umas palavras bonitas, talvez bonitas demais, tudo como se dizer grandiosidade fosse objeto comprado com preço. e vale? se valeu não sei mais. lembro de querer muito que valesse. mas trapezista que só sabe lembrar ter acreditado em trapézio cai. e trapezista assim é entre aspas.

aporia.

domingo, 27 de maio de 2012

três enquadramentos para única ordem

[Barbara  Probst]


Sebastião é sujeito irresponsável. E imprevisível e infantil, e disponível pra qualquer afeto e, por isso, sempre à beira de um colapso, e sedutor, e anárquico, e preguiçoso, e amável e doce, e criativo, e bruto.

Teofrasto não tem rosto, desconhece a própria idade, é condescendente e tem necessidade de agradar. É gente de inspirações súbitas, conversa com a natureza e com os demônios do mundo, tenta provocar o aparecimento de estigmas na palma da mão esquerda, é tão sensível que não suporta o contato com a própria roupa. Não é construtivo nem destrutivo, é como se fosse uma antena.

Frederico é paciente e bom, não usa óculos, mas vê, porque tem sentido de responsabilidade e de conjunto. Sua função é andar pra frente, mas sempre só consegue se anda junto com Téo e Sebastião que, no entanto, parecem puxá-lo pra trás.


Os três nem pensam que seria possível libertarem-se: são compassos ternários em improviso.

domingo, 6 de maio de 2012




Orlando tinha rosto esquisito: angular, afiado, e belos olhos pretos e indiferentes.


Onde estão os olhos de Orlando?, você perguntaria, se tentasse Orlando-olhar.
Estão no mar., você, juro, responderia, depois de ver Orlando-mar.


É que Orlando não tinha olhos para ver mundo e, no entanto, não morava nem pouco longe do mar.
Orlando, por isso - e nisso não havia outro jeito-, se sabia só.

Só, só olhando o mar.
Mas que mar?, outro você perguntaria.
O único céu em que sabemos mergulhar., você, juro, respondeu ao acordar.


[Gerard Vilardaga]


quarta-feira, 11 de abril de 2012

respiração cutânea ou "sobre a necessidade de ajudar o deus"



[pia bramley]


Quando sinto o nó, ele sempre já esteve dentro da pele.
é corpo estranho, grita o corpo, querendo expulsar.
é desassossego qualquer, condescende o cansaço.

No então, nó já mora e mendiga. E ele cresce.
Ninguém mais vê e ele cresce.
Tento dizer e ele cresce.

Procuro nos poetas nó que se pareça.
Oblívio óbvio: na procura do pronto não se vê.
Então procuro mais, para só ver crescer mais meu nó.

Fecho os olhos, entro n'água: agora o mundo precisa de mim.




sexta-feira, 6 de abril de 2012

cada vida, um papel
cada dia, outra vida.
[santiago salvador]


Mas hoje sou de novo George Eastman, 
o outsider do pânico em ser outsider. 

Pra que tanto café, diz Angela Vickers,
você matou a quem, diz Angela Vickers.
sempre em pergunta sem interrogação.

Café...
Café é pânico do não saber inside do que
                                       se quer entrar.

                                       é isso que diz:
                                       afinal, vambora.
                                       a qual de você
                                       você vai matar?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

então realidade é som, diria Tom Zé, mas disse Carson. 

por isso é que em poema sempre-e-sempre tem verdade. 
(você veja: metro, beleza, susto, tudo isso é sinal de real).

problema é, diz nosso-Platão, o quanto dessa verdade a gente também sabe poetar.

[Glauber Rocha]