quinta-feira, 13 de junho de 2013

A vida é sol, diz o Sol.
A vida é criança, diz a Criança.

E, no entanto, lá vem de novo a Flora querendo olhar a vida de fora.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Como é que se dança,
pergunta o corpo, congelado.

O fogo ouve e sabe a resposta,
mas, por ser metade esquecida,
já não lembra o ser fiat;
vira só hesitação.

Dinterminada a conversa, o dia me disse:

Sou duas, que me olham.
Uma, olhos de espera, criança, 
que tapeia o relógio por ânsia.
Outra, olhos de ter visto, já velha, 
quignora sol e sombra por abundância.

Depois café, cerveja e óleo.
Laranja, saliva e mel.

Sou Lênin, humor e lágrima.
Sou Maia, faminta e mítica.
Sou Hilda. A vida é líquida.



Ou:
É que o sertão é a alma de seus homens, disse o homem Guimarães. 
E eu, que mal e mal conheço o mar, não poderia chegar assim já olhando de frente o sertão: solo e sol mais amplo que o ar.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

É porque sou o deus do meu corpo, assenti para o espelho, que não sinto a superfície.

Por isto e apesar, olho com lupa os poros
-casa dos tantos seres que nunca saberei-
e imagino-os construindo uma expedição.

Mas onde ir antes:
meu cérebro, meu timo ou meu coração?

Respondo em prece câmbio-desligo:
veias; toda resposta é já a procissão.

Agora
Não sei entranha que não tenha sabido ser mucosa. Não sei mucosa que não tenha sabido ser antena.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Nuvem negra ou  "sobre doer em silêncio uma dor sem nome"


Blusa vermelha e sorriso sem olhos.
 estou atrasada e, no fundo, é verdade que eu quero o mundo.
problema é o mais do mais fundo: 
saturada numa insônia dormente,
quero ser avestruz. 
E daí?



































domingo, 7 de abril de 2013



Tenho uma alegria doída que se parece com o sol ou com a chuva.
arde, quando arde; troveja, quando assusta.

é isto, estar no mundo?

sou, de repente, o jeune homme que dança com a morte pro Roland Petit.
sou a bochecha do Nureyev no braço da Zizi.

é que o sexo e a morte são os únicos mistérios do mundo.
E daí?

quarta-feira, 27 de março de 2013




No vão entre poema e poema, estômago.
É então este, o vazio do tamanho do deus?

Como pão como é o pão: 
inteiro, mas cheio de partes.
Mais cheio na falta: ouro falta.
Vazio na sobra: cobre obra.

É então que
poema e poema
vão para cama em engulo da noite,
pois que fundir é engano da fome
(pelo menos)
em parte: ligapartes, 
(ruminante)
no todo: como o lobo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

E então, do terceiro mergulho,
surgiu uma terceira pessoa
num terceiro rio.

Se enxugando à margem, ouviu dizerem-lhe "você é o crônico da saudade mal-parada".

Crônico?, uma sexta pessoa 
pensou, cronicomoassim?

Crônicassiduidade, resolveu afinal 
o trigésimo terceiro quinto daquele mesmo quinhão, 
pois que de permanente, aqui, tem só a crônica da repetição. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

oxímoro, ou a agudeza idiota, disseram os dicionários depois dos gregos


É que a sede 
nunca me fez 
mais pragmát
ica, respondi 
ao vendedor 
de materiais 
de construção
que me entreg
ava a nova pá 
junto com o tr
oco; ao contrár
io e não sei por
quê, ela me faz 
uma ambição pr
eguiçosa, a.k.a.
calculativa.  É aí 
que eu penso tan
to antes de cavar
, que nunca tenh
o poço.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013


Bem me quer, mar me quer



Lançamos o barco, sonhamos a viagem, 
mar quem viaja é sempre o mar.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Basho atravessava o país para encontrar uma cachoeira.

Mesmo em Quioto, 
quando ouço o cuco, 
tenho saudades de Quioto,

respondia ele assim sempre que lhe entoavam um aonde vais?.

Imagino-o acordando ainda em casa,
preparando a viagem, comendo e se lavando, 
e tudo isto movido pelo desejo de ver Quioto, 
de onde, no entanto, ele ainda não havia saído.

É que a saudade de Quioto nunca teve realmente a ver com o fato de estar lá.