domingo, 28 de fevereiro de 2016

A mudez da minha avó parece fazer bem. Rezo com ela para que seja só uma mudez de casulo, refúgio das seringas e barulhos de máquinas.

Ela se alimenta há uma semana e meia por um tubo que passa pelo nariz e tem uma máscara que sopra um ar forte pra dentro da sua boca.

Ela está magra, mas tem o braço inchado. Um dos seus pulmões se colou só por estar virada de lado enquanto cuidavam da sua úlcera nas costas.

A médica disse que evitaria ao máximo a entubação, mas pergunta a nós se autorizaríamos.

Dizemos que sim.

Mas volto a vê-la (a hora de visita ainda não acabou) para só então entender que eu não sei o que isso significa.

Um tubo passando pela minha garganta para uma máquina regular os meus pulmões, enquanto sou alimentada pelo nariz porque a sonda no meu estômago é inútil enquanto o ácido gástrico continua vazando e corroendo a pele.

Converso com o enfermeiro, com a médica.

Depois vou pra casa tentando abraçar muito o meu avô, brincar com a priminha de 4 anos que o distrai, arrumar o almoço e fingir vida.

Cambaleio pra casa até uma ligação - a ligação médica que pede para confirmar a autorização.

Este é o momento da decisão impossível. Ligo para minha mãe, que não está na cidade, para dizer o impossível.

Falo, falo, falo - estou muda.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"Por que todo ser de exceção é melancólico?" pergunta o que parece ser Aristóteles.

Ájax, Hércules e Belerofonte - Sócrates, Platão e Hipócrates foram todos melancólicos?

Diz aí que o desequilíbrio causado pelo excesso de bile negra torna o melancólico propenso a ser, quase no mesmo instante muito quente e muito frio.

Mas é essa mesma possibilidade (que ele não escolheu) de habitar extremos que torna o melancólico aberto à criação poética.




Ou seja, tornar-se outro.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

acordo central


nossa pátria está onde somos amados
enquanto isso, no bureau where's my mind



Peut-on avoir des raisons de croire qu'une vie juste vaille la peine?¹
Aufklärung?
Purpurina?³¹
Mandela mandou o papo?
Governo dos outros? Governo de si?
Bittersweet?
Cadê você?
Vem aqui no meu colo?²²
Não tem comida em casa...
Olhos salgados de barata?
Decifração é uma palavra que você comprou, cadê o recibo?
Atenção é um tipo de oração
Do que você ainda se lembra?
Tenho uma amiga pra te apresentar

quinta-feira, 16 de julho de 2015


encontro_um tempo de abertura


Meu medo, meu terror, é se disseres:
Teu verso é raro, mas inoportuno.
Como se um punhado de cerejas
A ti fosse dado
Logo depois de haveres engolido
Um punhado maior de framboesas.

E dirias que sim, que tu me lembras.
Mas que a lembrança das coisas, das amigas
É cotidiana em ti. Que não te enganas,
Que o amor do poeta é coisa vã.

Continuarias: há o trabalho, a casa
E fidalguias
Que serão para sempre preservadas.
Se és poeta, entendes. Casa é ilha.
E o teu amor é sempre travessia.

Meu medo, meu terror, será maior
Se eu a mim mesma me disser:
Preparo-me em silêncio. Em desamor.
E hoje mesmo começo a envelhecer,


H.H, in júbilo, memória, noviciado da paixão

encontro_tempo de nexo


Nosso êxtase - dizemos - nos dá nexo
E nos mostra do amor o objetivo,
Vemos agora que não foi o sexo,
Vemos que não soubemos o motivo.


John Donne, in O êxtase.
Trad. Augusto de Campos

domingo, 3 de maio de 2015

Você ainda tem tempo, disse Fédon (ou o Cebes?), como se isso fosse resposta.

Mas daqui a dança ultrapassa, apurada, o cheiro de sabão no varal e a lama na barra da calça -memória do sábado- que agora escorrega no ralo do domingo de sol.

Para este truque, devo confiar nos pulmões como câmaras de ar. Uma vez, em Milão, um homem que pesava 120 quilos perdeu a vista fazendo isto. É que o nervo ótico é que faz todo o esforço. E quando se perde a vista, acabou.

É que a pressão do vazio é o que explode o coração, disse mais ou menos a Yourcenar.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Quando o tio patriarca da minha Heloise mandou me capar, entendi: vida é dor.

Mas que dor? - posso perguntar em voz endemoniadamente gutural e tão pouco interrogativa que já mostra uma sugestão de resposta.
Mas o que da dor? - posso perguntar com olho faiscante de quem dança frevo desde os 6 anos e acabou vestir fantasia nova.
Mas que força é dor? - posso perguntar com o tom tão obviamente retórico da parteira que sabe que a resposta é só um empurrão.
Duvida? - posso perguntar guimarães-roseanamente pra aranha que fica atrás do armário.