sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

repetir-repetir-repetir até ficar diferente


17 de fevereiro de 2007
(adaptado, medido e censurado):

"Foi quando eu passei a achar uma sorte gostar de mulheres. Não pelos motivos que efetivamente me fizeram ver paixão, mas também por outro secundário e muito importante: justo a falta de modelos que eu tinha sobre gostar de mulheres.

Existir modelo até existia, claro, mas eu achava essa minha história tão muito diferente desses outros, do pejorativo que pode ser quando alguém fala "sapatão" como se isso xingasse, que eu percebi que tinha, afinal, muito menos modelos desses perigosos porque pre-estabelecidamente colados no jeito como a gente chama as coisas de 'naturais'. Pobres dos heterossexuais, além de todo o sofrimento do amor, ainda têm que estar alerta para separar a profusão de clichês.

Ok, não que eu esteja isenta de clichês, tudo bem; mas o fato de ser constantemente lembrada de que a minha relação não é dentro dos maiores moldes já é o suficiente para me deixar, pelo menos, mais alerta do que eu estaria se não fossem estes lembretes.

Fiquei um tanto mais feliz, assim. E também porque isso se desenrolava em outro lado: o de perceber que o sofrimento de não saber o que fazer era, na verdade, muito bom, porque era sinal de que eu estava construindo uma coisa só minha, com alguém, então realmente nossa; não tinha jeito de copiar de ninguém.

Pensei no quanto deve ser mais difícil conseguir uma coisa dessas se você está vivendo alguma confusão desesperada e pensa em ler Capricho ou Marie Claire para procurar solução. Gente é sempre e mesmo aluna: se já se tem resposta pra pergunta, está feito o trabalho. Ninguém se esforça em vão.

Não-em-vão, então, é responder de novo, e no pulo do perceber que a resposta feita não serve, no fundo. Não-em-vão justo porque a pergunta é só sua e, se bem sua, radicalmente (ainda) sem resposta.

Mas diz isso pra moça que não sabe bem o porquê de gostar do moço que paga a conta, ou pro moço que não sabe bem o porquê de gostar da moça de voz fraca...

Pode mesmo ser ganância pseudo-ativista e boba minha, mas passei a achar que romance deve ser coisa ainda mais difícil pros héteros."


4 comentários:

Victor Cavalcanti disse...

Adorei!
Realmente não é nada fácil, mas também não é nada pobre, não há o que separar.

Tem coisa mais clichê do que o pai preocupado aguardando notícias do filho que está pra nascer ou o nervosismo do garoto que gagueja e perde as palavras diante daquela que lhe vem tirando o sono? No entanto, cada uma dessas experiências pode ser tão exclusivamente única que faça parecer que toda a infinidade do cosmo concentra-se no fundo do umbigo do mais comum dos homens, que nessa hora se tornou centro do universo girante.

Penso que a autenticidade não está comprometida com a diferença ou com a repetição. Acredite, faltam não só as palavras, mas o chão na hora de dizer tudo que se decorou, faltam os conselhos ouvidos nas longas conversas com o melhor amigo, falta aquilo que você disse que faria, falta aquilo que você sempre fez e deu certo, falta tudo e na hora que falta tudo só fica...

Você.

Anônimo disse...

Amiga,
Romance é sempre difícil, para todos nós. Amor, um pouco além do impossível.
Salam!
(from the outer space, Careta Planet)

thahy disse...

texto-presente para alguém que anda confusa atualmente...

Na casca de limão disse...

Que coisa estranha e maravilhosa, a internet, juntando confusões de gente que não se esbarraria nunca na rua para conversar sobre tal ou tal coisa que têm em comum.

e tomara que o texto realmente presenteie de alguma maneira.
toda a sorte por aí!