sexta-feira, 6 de maio de 2011

"prova ontológica" ou descartes está me afetando pela culatra

Criança e achava que "morar embaixo do viaduto" era metáfora. 

Isto se explica: mais nova ainda, minha mãe perguntou se eu gostaria que a gente tivesse uma casa na praia. Como rosto translúcido de criança mostra rápido toda a confusão, mamãe compreendeu os sofás e tapetes em cima da areia que estavam aparecendo na imaginação da criança. Então ela riu de que-gracinha e me explicou que era uma espécie de linguagem figurada, o que ela tinha dito, e servia para encurtar o que já estava subentendido. Disse, depois, que existia coisa mais radical ainda que chamava "metáfora", e isso sim dava em coisas absurdas-mais-ou-menos.

[adam ek berg]

Achei bonita, a palavra.

Eis que, então, se falavam sobre "morar embaixo do viaduto", eu entendia  "praticamente embaixo": num prédio-ou-casa muito perto de um viaduto. Ou ainda, morar em lugar ruim.

E, sendo criança no Rio de Janeiro, é claro que os olhos passaram por algum viaduto habitado eventualmente, mas eles nunca se sintonizaram com a possibilidade desse absurdo-outro-mundo antes; logo, nunca tinham reparado nisso até os meus 7 anos.

Até os meus sete anos, disse. É, chegou o pequeno clímax da história, o desanuviamento no encontro avassalador:  Sim, havia pessoas do outro lado do vidro do carro; e sofás; e cadeiras e cartola, e mais muito-muito lixo. E tudo isso embaixo da estrutura de concreto que leva carros por cima das ruas. Sim, realmente embaixo-do-viaduto.

Depois disso, nunca duvidei da realidade extensa das imagens.

4 comentários:

Eliza Moreno disse...

Agridoce.

Te aprecio.

Na casca de limão disse...

o destino é engraçadinho.

tenho lido e relido um poema da Safo que tem essa palavra, literalmente doce-amargo, para descrever o amor.

Camila Oliveira disse...

bem, bem, se o gosto é da estranheza próxima da vida...

Eliza Moreno disse...

Essa palavra me lembra vc.
não tanto pelo sentido literal mas porque nela coexistem duas coisas diferentes.